Mulheres in Capitu: traz o feminismo para o palco.

Foto: Camila Dias

Foto: Camila Dias

Um dos maiores elogios que tenho a Mulheres in Capitu é que não é para homens. É para toda a sociedade.


A imagem de Capitu, personagem de Machado de Assis da Obra Dom Casmurro já faz parte do imaginário nacional, e a velha dúvida paira há mais de uma século: Capitu traiu ou não Bento Santiago? A obra de Assis é construída em primeira pessoa, e quem narra os acontecimentos - é o próprio Bentinho - não deveríamos nos preocupar sobre o possível "crime" de Capitu, mas sim com a cabeça doentia e insana de Bentinho. Na minha concepção aí está a genialidade machadiana.


A obra literária se torna única, e adaptações para o teatro tendem a minimizar a obra, caindo em certos clichês e empobrecendo o debate, principalmente sobre o pecado ou não de Capitu. Entendo que o enredo de Dom Casmurro pertença a literatura, pelas características da obra, e quando soube da temática presente no espetáculo admito que me preocupei, imaginei que a sua dramaturgia iria explorar a figura, já desgastada de Capitu, seus crimes e pecados morais.


Ao abrir as portas do teatro nos deparamos com uma cena posta com as atrizes Bianca Cristina e Andressa Costacurta, a luz bem colocada e recortada cria uma verdadeira obra de arte composta por uma tela de sombras. O espetáculo é conduzido inicialmente sem diálogos. Se instala uma tensão e a pegada performática cobra das atrizes um bom trabalho de corpo, com isso, o expectador havia até se esquecido do enredo de Dom Casmurro.


A dramaturgia revela a escolha de uma personagem que da fala e empoderamento ao discurso feminino, não se trata de uma simples Capitu da imaginação de Bentinho vindo da genialidade machadiana, mas sim diversas "capitulinas" tão presentes e comuns no cotidiano. As cenas se constroem de maneira inteligente, formam uma coreografia de explosão em relação a questão de gênero, vale ressaltar o bom uso dos tecidos em cena dando-lhe formas e simbologias. Sobre o cenário, uma única cadeira que se insere nas ações e na construção das cenas, inclusive valoriza aqueles que possuem olhares mais atenciosos e detalhistas. Até mesmo a trilha sonora, que apresenta músicas conhecidas com vocais encaixam bem no espetáculo não caindo no desvio da cena ou na mera ilustração da letra, isso sem dúvida destaca o bom trabalho das atrizes e a maestria na direção.


Em tempos em que tudo cai no revisionismo, e o feminismo vem sendo visto como mero discurso político de determinada ideologia. Especialistas, na grande maioria homens, tendem a desvalorizar a presença da mulher "O especialista é um conspirador contra os leigos", dizia George Bernard Shaw, e chegamos a assistir mulheres que se assumem contra qualquer proposta feminista, com o orgulho de um especialista de bons argumentos e boas construções racionais, esquecendo o cotidiano terrível e leigo de uma sociedade machista e patriarcalista.


André Anelli assina a direção do espetáculo Mulheres in Capitu, que foi contemplado pelo prêmio Aniceto Matti da Secretaria Municipal de Cultura de Maringá. Espetáculo que surpreende que destaca a voz da mulher, as as diversas capitulinas que sendo mulheres, putas, vadias, santas, mães... São sufocadas, julgadas e dia após dia por tantos Bentinhos que obviamente não somavam na plateia, e possivelmente, não aplaudiriam em pé a obra prima desse espetáculo.














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