O efeito e o eco do falsete de Mc Melody


Melody Abreu, 8 anos, cantora de funk, conhecida como Mc Melody. Sua página no Facebook tem cerca de 28.000 seguidores e divide opiniões. Essa é a segunda conta criada para a cantora mirim: a primeira, com 150.000 fãs, foi tirada do ar por causa de denúncias dos usuários do Facebook. Esses usuários, tão cheios de boas intenções, alegam que a garota tem o trabalho explorado pelo pai (Thiago Abreu, de 26 anos, conhecido como Mc Belinho), que sua imagem é hipersexualizada e suas músicas contêm conteúdo impróprio. Sua música de maior sucesso é “Fale de mim”, cuja letra deixa claro que as críticas direcionadas a ela ocorrem por “inveja das recalcadas”.

Há uns dias comecei a seguir a garota pelo Facebook, atraída por uma postagem em que o pai pedia que ela realizasse um falsete parecido com o de Beyoncé. Obviamente, a criança deu um berro ardido de estourar os tímpanos e, ofegante, sorria pra câmera mexendo nos cabelos, dentro de uma microssaia brilhante. Dois dias depois, mais uma postagem: dessa vez, o falsete teve o incentivo não só do pai, mas de uma mulher que berrava tão mal ou pior que a criança. Eu assisti ao vídeo, mas, confesso, não tive coragem de ligar o som. Hoje, Melody postou uma “prévia” de sua nova música: “Fale de mim 2”. Curiosa e corajosa, abri o vídeo e liberei o som. Novamente, gritos ardidos.

Novamente, a roupa brilhosa, justa e curta. Um salto de uns 7 centímetros e os cabelos ondulantes. Mas, dessa vez, notei algo que não havia recebido minha atenção nas últimas visitas à página: os comentários dos usuários do Facebook. Uns diziam à garota que ela parecia um bezerro, uma chaleira, que sua voz era horrível, que ela não sabia cantar e que aquilo não era um falsete (jura?). Outros diziam que ela não tinha criatividade para a música. Outros diziam que ela repetiu a roupa, que só usava aquele vestido. Outros comparavam-na a uma sardinha, faziam montagens (por conta do excesso de brilho no vestido). Chamavam-na de piada, de ridícula, de lagartixa. Li todos os 563 comentários a respeito do vídeo e NENHUM deles poupava a garota.

Pedras e mais pedras jogadas por jovens e adultos contra uma garota de 8 anos cantando na internet. Ou seja: os mesmos usuários que denunciaram seu perfil e mostraram à garota preocupação quanto à exploração do pai dedicaram minutos de sua vida a menosprezar sua música. É uma criança de 8 anos que acredita cegamente num sucesso vindouro, apregoado pelo pai Mc. É uma criança de 8 anos que tornou sua brincadeira um trabalho questionável. É uma criança de 8 anos que, em um dia, leu 563 críticas a seu respeito e obriga-se a ver isso como “inveja das recalcadas”. Depois disso, recusei-me a acreditar na culpa do pai no caso de exploração de Mc Melody.

Não sou Deus nem juíza para encontrar culpados, afinal. Mas talvez eu possa encontrar desculpados e, Mc Belinho, você está, por hora, parcialmente desculpado. Melody, hoje, perde horas de brincadeiras, sossego e descanso, aos quais toda criança tem direito. Melody, hoje, perde a inocência e a bondade da infância, em troca de uma relação conturbada com pessoas que ela nem conhece. Melody está perdendo a dádiva de não ter de lidar com o julgamento alheio, com as horas marcadas, com a preocupação com o corpo e o status social, com o cansaço a que, somente adulta, ela se submeteria. Os olhares estão atentos, os dedos estão prontos para (digitar e) apontar um julgamento ácido, fazer uma piada e criticar a família da garota. Mas nenhum olhar (repito, nenhum dentre 563 olhares) foi capaz de ver somente o que é: Melody Abreu, 8 anos, em frente a um microfone, de roupas brilhantes, cantando. E, só com esse gesto, o eco do seu falsete deu voz a quem precisava emudecer...

Fernanda Cassim além de colunista desse blog, é professora, doutoranda em letras e estudante de psicologia.

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