O dia que ganhei algumas dicas de direção


O sonho de toda uma geração masculina nascido no século XX era a conquista de ter seu carro, inclusive, a idade dos dezoito anos sempre foi um rito de passagem muito forte para essas gerações, pois era o momento que você provavelmente adquiria a sua tão sonhada carteira de motorista. Eu aprendi a dirigir muito cedo, meu pai me ensinou ainda num opala 1977 marrom Monterrey as primeiras lições. O volante era pesado, a visão do capô alongado demais e o motor ainda era carburado, quantas vezes escutei poucas e boas do meu pai por ter deixado o carro morrer.

A apesar de aprender a dirigir muito cedo, ao contrário dos meus amigos próximos, eu não obetive minha carteira aos 18 anos, andava imprudentemente sem o documento para a tristeza do meu pai, inclusive, comprei meu primeiro carro, uma Uno roxo 1997, sem ao menos ter a minha carteira. E uma das coisas mais triste, é que fui tira-lá apenas aos 22 anos, após a morte do velho. Um dos tantos espisódios doloridos por conta das minhas incosequências.


Meu irmão, que tanto vem fazendo falta, aprendeu a dirigir comigo, e como é de praxe o aprendiz superou brilhantemente seu professor, e manobrava qualquer carro de qualquer carro, de qualquer ano e de qualquer motorização. Eu ensinei outras pessoas a dirigir, amigos, namoradas e até mesmo uns desconhecidos pelas ruas que não tinham noção do que estavam fazendo, mas na vida, até hoje, pouca gente teve a ousadia e prepotência em me ensinar a dirigir depois de tantos anos rodando por aí, até esses dias.


Confesso que não quis entrar naquele carro, um carro cumprido, claro todo limpo, bancos marrons, interna prata e um cheiro de mentol... me senti numa situação desconfortável, mas sabe quando você não consegue sair da situação. Era uma pessoa que eu sabia quem era, mas que não conhecia, me cumprimentou efusivamente – inclusive com gesto nas mãos que fez baralho – Completou a frase com um “Fica de boas ô professor, só não vai se sentir em casa hein”


Achei engraçado me chamar de “ô professor”, sentado no banco me pedia total atenção, era perceptível que não tinha paciência, pois por mais de uma vez disse “vou explicar uma vez só”, e em alguns momentos que me olhar se perdia só escutava um estalo dos dedos seguido de um “ow, olha pra mim caralho!”. Esse aloprado professor, de forma imprudente aos nossos olhos cartesianos, tirou umas cervejas de trigo, praticamente me obrigou a beber fazendo umas caretas indicando que se tratava de algo que era uma delícia. No final das contas, essas cervejas é que fizeram muito bem, essa é uma das únicas certezas.


Dentre as lições, estavam segure o volante como se “fosse nove e quinze do relógio”, “se choveu relaxaaaa, não fodeu! Vai diminuindo marcha... na maciota e evita aquaplanagem”, “jamais freie numa curva, o carro ele vai sozinho” e fazendo um movimento de carro as mãos mostrando que ele não iria virar... Findada a lição, se despediu da mesma forma animada, e avisou o que tinha de avisar e se foi.


Você que leu esse texto aqui, deve estar se perguntando qual o sentido? Qual a mensagem por trás disso?

Bem, sempre escutei na minha profissão que ensinar era um ato de amor, mas pude perceber nesse encontro, em algum lugar do universo, que ter o coração aberto para aprender aquilo que julgamos ser mestres e especialistas, é o primeiro passo para reconhecermos a nossa diminuta arrogância da existência humana, e assim podermos seguir as direções das perigosas curvas da vida.

Obrigado! Seguirei as dicas conforme nosso combinado.


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