Laura, a primeira namorada que não tive.


Neste dia dos namorados, lembrei-me da primeira namoradinha que não tive. Foi há muito tempo, não me lembro ao certo qual era a série, só sei que estudava no período da tarde, e meus pés ainda balançavam no ar enquanto estava sentado na carteira escolar, sim naquele tempo chamavam as mesas escolares de carteira.


Um dia cheguei cedo como de costume, olhei para a carteira e estava lá escrita com uma letra grande, bem redonda e desenhada uma pergunta: "Quem senta aqui a tarde?" Achei o cúmulo tamanha falta de respeito com a escola. Passaram alguns dias e respondi meu nome, no outro dia estava a resposta: "Eu sou a Laura!" Eu achei aquele nome lindo, e começamos uma conversa que não tinha fim. E, aquela minha ideia errada de quem escrevia nas carteiras já havia mudado.


Passamos a escrever tanto que a velha carteira estava toda rabiscada, sem contar que corríamos risco das senhoras da limpeza as trocarem de lugar. Laura era muito inteligente, e decidimos conversar por bilhetes escondidos nos livros da biblioteca. Precisaria ser um livro que não seria facilmente emprestado, decidimos usar o 4º exemplar de "assassinato no expresso oriente" de Agatha Christie, não era um livro ruim, mas como haviam várias cópias, não iria sair fácil daquela estante. Pouco depois soube que o diretor era obcecado pela rainha do crime, e possivelmente explicaria os vários exemplares ali.


Laura me contava como a oitava série era difícil, como ficou mal por uma nota vermelha em matemática, revelou que tinha problemas com seus pais e que eles estavam se divorciando. Aprendi a escutar e me preocupar, pensava nela todos os dias, inclusive colocava seu nome sempre nas minha orações. Numa época em que a fotografia era difícil, Laura se descreveu como uma mulher de longos cabelos cacheados negros. E mesmo com toda insegurança de menino do turno da tarde, propus da gente se conhecer e conversar. Ela não quis, disse que poderia ser mais no futuro, e deu a ideia de ser na última semana de aula quando aconteciam as provas finais.


Quando chegou a época dos jogos escolares antes das férias de Julho, me organizei para ir á escola, nessa época os portões se abriam para alunos de outros turnos. havia deixado um bilhete no mesmo livro de sempre, na época meu pai estranhou eu querer ir acompanhar os jogos e me levou até a escola de manhã, levei uma canetas e um caderno e fiquei ao fundo da biblioteca, cheguei cedo e esperei até o momento que ela aparecesse. Logo após o horário do lanche ela veio! Não possuía os cabelos cacheados negros, era loira dos cabelos lisos, e magra! Duvidei que seria ela, mas a vi colocar mais um bilhete dentro do livro, depois que saiu, fui até lá e percebi que era a mesma letra linda desenhada, e estava muito bem escrito um texto sobre como a saudade machuca a gente.


Estava confuso, Laura não tinha cabelos negros cacheados? E por havia mentido? Soube que era filha de uma das funcionárias da cantina, seu pai havia abandonado ela ainda quando bebe. Não se chamava Laura, e sim Andréia. Depois de poucas perguntas e muitas verdades sai chorando da escola, na esquina estava ela, não sabia mais como iria me referir. Pensei em gritar, mas antes que meus pulmões se enchessem de ar veio um rapaz de cabelos compridos, blusa amarrada na cintura, usava All Star e estava de Skate, ele deu um beijo em sua boca e a abraçou.


Voltei rápido para casa, pois tinha tarefa de ciências. Estava pela primeira vez com coração moído. Não entendi por que tantas mentiras, não a reconhecia, e foi terrível perceber que a Laura só existiu na minha solitária imaginação. Nunca mais escrevi para ela, e o livro ficou na estante ocupando sua função de guardar poeira. O que mais me marcou mesmo, por incrível que pareça, foi o fato de ter aprendido com ela, por meio de silenciosa observação. Na minha pequenez mental, eu teria demorado alguns meses para chegar a tão óbvia conclusão se não fosse a Laura com seu ensinamento involuntário. Por causa dela, aprendi a fechar meu coração, que seria moído outras vezes, mas menos do que o destino deveria ser. Laura foi minha primeira namoradinha platônica. E, como toda namorada, me encantou e me ajudou a amadurecer. Ensinou-me a ser eu mesmo. Com seus cabelos loiros ao sol, trouxe mais cores ao meu início de vida. É para ela esta homenagem, condenada, como eu, ao desconhecimento eterno.





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© 2015 por Arnaldo Martin Szlachta Junior

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