Que importa as cores, para o Senhor da Luz?


Hoje sai pela manhã, deixei as coisas todas organizadas com uma limpeza ímpar, louça bem lavada, todos os panos em ordem, e um cheiro cítrico forte daqueles que dão uma dor de cabeça prazerosa. Ao caminhar pelo corredor ainda escuro, lembrei que não preciso dizer adeus para ninguém. A cada passo as luzes se ascendiam com a minha presença, a cada barulho dos meus New Balance naquele chão liso vinha a tona o quanto todos tem suas preocupações, anseios e desejos, e o quanto esquecemos do finitude do tempo, das pessoas e das relações. Parece triste partir assim, sem lembrança nem lágrima, a única certeza é que não precisarei avisar que cheguei bem.


Passando com o carro nas ruas lembrei daqueles que moram tão perto de mim, tão perto fisicamente mas estão longe, embebidos sem terem a noção da crueldade silenciosa do tempo, e o quanto essa ressaca é dolorosa. Tenho uma proximidade grande com o tempo, ele não tem pressa de nada, é teimoso e adora dizer "Eu avisei". Por ofício estudo os homens no tempo, falo da vida deles como se ainda respirassem entre nós, e sabe o que é mais triste? Eles estão mais próximos que aqueles bêbados esquecidos que moram perto de mim.


O passado é colorido? em minha mente sim, e olha que não vejo todas as cores, mas quais seriam as cores do passado? Podemos enxergar-las em pinturas, desenhos e fotografias você pode me afirmar, mas mesmo assim, não saberemos de suas cores. Uma cor tem seu valor estético, transmite algo e nos dá parâmetros da existência. Mas quando se trata da mente humana uma cor é também uma escolha. O tempo nos ajuda a mudar a todo instante, as vezes nos irrita tanto e só sobra a saudade. Mas imagina se o tempo não fizesse seu ofício?


Vi minha amiga Cecília, ela chupava uma casquinha de sorvete, não sei o sabor pois não identifiquei a cor, ela estava toda elegante com grandes óculos escuros. Até Cecília mudou! Não sei qual é sorvete dela, não sei se o amor é vermelho, se a fortuna é amarela, não creio que a esperança seja verde e pouco me importa a cor do seu sorvete. Cecília tem os olhos ensombrados, e também não terá precisão das cores.


Por mais que desejamos, não vamos fugir das mudanças, somos obrigados a fazer escolhas, e por vezes só uma escolha que devemos tomar. O tempo é vida em ação, as mudanças são as escolhas de todos, e de nós e por nós. Hoje você valoriza suas cores - certas cores - amanhã poderão ser outras, decididas por você, pelos outros ou até mesmo por pessoas que farão sua cabeça na escolha. Viva suas cores, pois o tempo as desgastam, a luz as apagam e o esquecimento as desbotam. Que importa as cores, para o Senhor da Luz? Quando caminhará sem precisar dizer adeus para alguém a cor que jamais esquecerá é o azul do céu de Luz.












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