Senhora solidão


A solidão veio me visitar, não sei ao certo há quantos dias, mas ela está aqui e insiste em ficar. Ela já me visitou outras vezes, nunca havia ficado tanto a ponto de requerer um lugar próprio na mesa de jantar querendo até escolher seu prato. A solidão é uma senhora, não muito velha; uma mulher de cabelos curtos e encaracolados que já pedem um nova tinta, daquelas cores nada discretas; usa uma mesma blusa de lã, independente se está quente ou frio; sua saia é démodé cheio de flores, num tom bege terrível a qualquer bom gosto; ela insiste em usar meias grossas e coloridas de algodão, hoje mesmo estava com um par cinza com rosa.


Ela assiste a TV com volume do som alto, escolhe os programas que detesto e faz questão de comentar tudo, não com palavras, mas com resmungos raivosos. Até agora não entendi o porque ela está aqui, não compreendo o que ela diz - parece-me que teve um marido chamado Jorge - não faço questão de perguntar também. A casa está tomada com cheiro forte de naftalina, não duvido que seja o seu perfume, seus chinelos de pano ficam jogados pela casa, sempre tropeço neles e isso só me dá mais raiva dessa solidão.


Hoje ela me acompanhou no trabalho, expliquei que alí não era seu lugar, mas sua insistência não me deixou agir, entrou no carro bateu a porta. No trabalho abriu minhas gavetas - ela é fissurada nas minhas lembranças - pegou uns brincos do meu antigo amor, daqueles bem grandes, ficou jogando de uma mão para a outra, e eu só queria não ver mais aquela memória tão dolorosa. A solidão foi lá fora, fumou e bateu papo com meus inimigos, escutava as altas risadas sem ter a certeza se falavam de mim, tão logo estava próximo ao meu armário, esperando eu abrir a gaveta para brincar com minha lembranças.


Acordo com coração mais leve depois de um sonho bom, levanto e a vejo sentada na mesa do café com um olhar de cobrança impar. Ela não toma café, gosta só do aroma. Todo dia me pergunto: Como ela pode ter inspirado tantos poetas, gênios e artistas? Tomara que ela logo me deixe, não posso pedir simplesmente para ela sair, enquanto isso tomei um banho, coloquei as meias grossas cinza com rosa e hoje decidi ficar em casa resmungando da vida, pensando que todos são idiotas. Enquanto a TV só estava ligada.










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© 2015 por Arnaldo Martin Szlachta Junior

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