Nudez, arte e crianças: precisamos falar sobre isso.


O coreógrafo Wagner Shwartz durante performance La Bête, no MAM (Atraves.tv/Reprodução)


Há algumas semanas acordei com vários e-mails e mensagens pelas redes sociais sobre o fechamento no dia 10 de setembro de 2017 da exposição sobre a diversidade denominado "Queermuseu" em Porto Alegre, pelo Santander Cultural após protestos de grupos como o MBL - Movimento Brasil Livre, que na minha concepção deveria se chamar Movimento Brasil Conservador. Na ocasião, procurei ver virtualmente o que foi exposto: como imaginei havia ali um exagero conservador, e principalmente cristão. A proposta do Queermuseu basicamente era enfocar a sexualidade e seus tabus. Os símbolos e desenhos ali deveriam ser enxergados como uma expressão artística, e relação do homem e sua sexualidade. Na oposição fiz uma postagem via facebook comentando sobre a expressão na arte.


Nessa semana um novo acontecimento, novamente ataques contra uma performance que aconteceu no "35º Panorama da Arte Brasileira de 2017" no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), na qual o artista fluminense Wagner Shwartz realizava uma performance denominada "La Bête", o trabalho do artista consiste em transformar seu corpo num objeto manipulável fazendo um clara referência ao trabalho da artista concretista Lygia Clarck. A nudez, nesse caso especificamente, não tem ralação alguma com o aspecto sexual, e o trabalho do artista é apresentar o corpo sob a perspectiva do outro, e como ter seu corpo manipulado pelo outro.


Em 1975, uma performance semelhante mostrou o quanto cruel pode ser o público! A artista Marina Abromovic realizou em Nápoles na Itália uma performance chamada "Ritmo 0" na qual ficaria imóvel, ao lado colocou 72 ítens numa mesa para que os expectadores pudessem usam os objetos como quisessem no corpo da artista. Entre os objetos estavam: penas, paus de fita, facas, uma arma carregada entre outros. O resultado foi que seus expectadores iniciaram fazendo cócegas, depois cortaram suas roupas, machucaram sua pele e diversos abusos sexuais foram cometidos. Nessa performance a arte foi além da experimentação, da expressão, do choque, do enfartamento ao tabu e tornou-se algo perigoso para a artista. A arte não possuí regras, mas deve ter seus limites, até mesmo para ser reconhecida como arte.


Performance Ritmo 0 de Marina Abromovic em 1975 (fotos acervo pessoal da artista/ reprodução UOL)


O público é uma surpresa, cada apresentação, exposição, performance... são únicos e a pergunta que me fica é: O que uma criança fazia ali? Por favor, sem moralismos bestas! Já expus aqui que o foco da exposição, e muito menos do artista era a sexualidade e muito menos a pedofilia, mas como profissional da educação e como artista não tenho receio de dizer que o museu se equivocou ao permitir que uma criança, mesmo acompanhada da mãe, estivesse naquela performance. E não vamos também crucificar o artista, a mãe e tão pouco a família, ninguém tem total perspectiva de uma exposição, e quando nos deixamos levar ao processo o juízo é ressignificado, diferentemente dos moralista da facebook que constroem suas críticas no conforto do seu lar.


Mas fica a dúvida, será que havia alguma criança na apresentação de Marina Abromovic? Como seria a reação da criança se o coreógrafo Wagner Shwartz contasse com um público como da exposição de Nápoles em 1975?


Uma criança vive um processo de formação, ela ainda busca entender, através da vivência e experimentação, como a sociedade se organiza e ela precisa aceitar e conviver com essa sociedade (muito moralista nos últimos tempos por sinal). A nudez é um tabu universal, faz parte dos conflitos humanos sendo atacada por diversas forças morais. A menina se aproxima do homem nú de barriga pra cima junto da mãe (segundo o vídeo e de acordo com os relatos sobre o que aconteceu), ela toca no corpo do homem, mas não na sua genitália. Mas perceba que para uma criança tal significação pode influenciar e muito sua consciência. A nudez de um adulto pode ser algo perigoso para uma criança, e se ela faz um juízo de valor de algo corriqueiro pode cair em armadilhas cruéis. A irresponsabilidade institucional nesse caso foi nítida.


Num mundo machista, misógino e cada vez mais ligado ao ódio toda a desconstrução é um choque e se faz necessária. Não aceitamos nós mesmos, não aceitamos os outros e ódio e a destruição só mostra que as pessoas não mudaram, só estão se revelando como aconteceu em Nápoles com Marina Abromovic em 1975. Precisamos lembra que para que haja uma descontração e um choque com a moralidade é necessário que haja uma construção do indivíduo (que se faz na vivência da infância), que historicamente é pautada na moralidade.

















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© 2015 por Arnaldo Martin Szlachta Junior

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