Vítimas do golpe do bilhete premiado.



Todo o começo de ano as mesmas situações se repetem: muitos viajam; outros recebem parentes que muitas vezes chegam de surpresa; na tevê temos as receitas e dietas milagrosas; previsões do futuro que são recheadas de incertezas. Mas hoje eu vi uma reportagem, dessas bem comuns nessa época do ano, devido aos altos valores pegos pelas loterias: Tratava-se que era de um golpe aplicado a uma idosa -tratava-se do golpe do bilhete premiado.


Ao entender como funciona o golpe, uma pessoa se apresenta como alguém pobre, mal vestido e analfabeto, e que devido a uma tragédia da vida qualquer, oferece seu bilhete premiado por um valor bem inferior ao que seria pago pelo prêmio, para somar, um cúmplice se oferece para comprar o bilhete e aproveitar essa grande oportunidade, fazendo uma pressão psicológica, e você se dispõe a pagar mais por essa "oportunidade". Sem grande reflexão me deparei com a seguinte questão: como alguém pode ser tão ingênuo em cair num golpe tão infantil, e promptamente tive a replicação: todo o brasileiro!


Indubitavelmente somos um país ligado a golpes, politicamente vivemos golpes atrás de golpes, desde do escambo dos português com os indígenas no período pré-colonial até a atualidade. Sérgio Buarque de Holanda já apresentou um estudo interessante sobre esse homem cordial e a origem desse nosso "jeitinho brasileiro", os golpes que observamos todos os dias e tão corriqueiramente fazem parte de nossa existência, e se tornaram comuns, mas nem por isso deixam de ser violências contra as pessoas e nós mesmos.


Confundimos tão facilmente vantagem com oportunidades, comprar dinheiro por menos dinheiro é algo tão irreal e ilusório, mas o golpe acontece pois quem compra, na verdade, está aproveitando de uma grande vantagem sobre uma pessoa pobre, mal vestida e ignorante para tomar, num verdadeiro assalto, seu prêmio milionário. Usurpamos todos os dias prêmios corriqueiros, nos vendemos por pouco e facilmente trocamos a consciência pela "oportunidade" a tornar isso um ciclo vicioso.


Lembro-me quando eu e meu pai, num passeio perto dos correio central em Londrina, encontramos uma carteira com documentos e dinheiro, muitas notas naquela moeda tão desvalorizada, talvez havia um salário de um mês todo ali, estávamos com um dos colegas de trabalho do meu pai, que prontamente destacou essa grande "oportunidade", meu pai ignorou suas palavras e entregou a carteira com todo o dinheiro no posto policial que havia ali perto, se não me falha a memória o próprio soldado de plantão estranhou receber uma carteira recheada e comunicada como perdida. O homem que estava conosco ficou irritado dizendo -aposto que esse guarda ficará com o dinheiro, e terminou com a seguinte frase -antes eu do que ele (se referia ao policial).


Por mais contraditória que possa aparecer essa esperteza e sagacidade do brasileiro é o que o torna tão ingênuo. Queremos entrar na política para enriquecer, buscamos ser artista somente pela fama e dinheiro, votamos numa pessoa de índole duvidosa (e muitas vezes já comprovada pela justiça) somente porque teremos a mínima chance de um cargo com bom salário ou alguma mínima esperança de vantagem, fazemos isso quando defendemos algo que não acreditamos simplesmente para manter nossa zona conforto.


Ao esquecermos do coletivo esquecemos de nós mesmo, ao atacar o outro escrevemos a nossa própria sentença de pequenez e insignificância. Fica a pergunta você acha que cairia no golpe do bilhete premiado? E qual seria sua atitude em relação à carteira reachado do pobre trabalhador?








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