A trégua de 1914: Quando o Natal foi maior que a Guerra.


Na noite da véspera do Natal, algo incrível aconteceu, tropas inglesas e alemãs simplemente pararam o conflito para celebrarem a maior comemoração cristão. As tropas que estavam em Ypres na Bélgica e França começaram a ouvir sons diferentes vindo das terras que estavam em disputa; eram soldados alemãoes cantando músicas foclóticas e sendo aplaudidos pelas tropas aliadas, logo em seguida soldados relatam que as tropas cantavam a uma só voz cada um na sua distinta língua. Escrevendo em seu diário na época, o sargento major do regimento, George Beck, fez a seguinte observação: “Alemães gritaram para nós e nos pediram para jogar futebol com eles, e também para não disparar e eles iriam fazer o mesmo. Às 2h (do dia 25) uma banda alemã passou ao longo de suas trincheiras tocando ‘Home Sweet Home’ e ‘God Save the King’, que soou grandioso e fez todo mundo pensar nas nossas casas”.

Então, com muito cuidado e grande coragem, soldados alemães e aliados desarmados saíram de suas trincheiras para ficar no topo de suas defesas. Perto de Neuve Chapelle, um soldado irlandês descaradamente atravessou a terra de ninguém onde foi recebido não com fogo de metralhadora, mas com um charuto. Seu ato de bravura inspirou outros em sua tropa a fazer o mesmo. Cenas semelhantes começaram a se repetir em outros lugares, com soldados caminhando em direção a trincheira do outro, ou simplesmente se encontrando no meio caminho.E quando eles se encontraram, os militares trocaram saudações de Natal da melhor forma que podiam. Eles começaram a dar presentes uns aos outros sob a forma de lembranças, cigarros e alimentos como carne, vinho, conhaque, pão preto, biscoitos, presunto e até mesmo de barris de cerveja. Eles mostraram fotografias da família e entes queridos que estavam em casa. Alguns soldados até começaram a jogar futebol com bolas improvisadas.

Notavelmente, cenas semelhantes ocorreram em dezenas de pontos distintos desde o Mar do Norte até a fronteira com a Suíça. Os brigadistas do coronel George Laurie, depois de saberem o que estava acontecendo, o avisaram do ocorrido. “Acredita-se possível que inimigo possa estar contemplando um ataque durante o Natal ou Ano Novo. Vigilância especial será mantida durante este período”. No entanto, o coronel Laurie deu ordens para não atirar no inimigo no dia seguinte, a não ser que eles atirassem primeiro. Às 20h30 da véspera de Natal, ele sinalizou para o quartel-general da brigada. “Os alemães têm iluminado suas trincheiras, estão cantando canções e nos desejando um Feliz Natal. Elogios estão sendo trocados, no entanto, estou tomando todas as precauções militares”. Ele ainda acrescentou que nenhum tiro havia sido disparado desde 20h.

Em seu diário, o tenente Kurt Zehmisch, do regimento Saxony 134, escreveu que “Nenhum tiro foi disparado”. Após o evento, os soldados estavam ansiosos para compartilhar o que tinha acontecido com seus entes queridos. Henry Williamson, na época um cabo de 19 anos da London Rifle Brigade que sobreviveu à guerra para se tornar um escritor, enviou uma carta do front para a mãe dele. “Na minha boca está um cachimbo presentado pela princesa Maria. No cachimbo tem tabaco alemão. Ha ha, você diz, [isso] é de um prisioneiro ou foi encontrado em uma trincheira. Ah, não! [O cachimbo] veio de um soldado alemão. Sim, um soldado alemão vivo em sua própria trincheira. Maravilhoso, não é?”. A trégua também permitiu que as tropas de ambos os lados recolhessem e enterrassem seus mortos, o que também não era pouca coisa. Era cruel para um militar saber que os restos mortais de companheiros ainda estavam a céu aberto.

Assim foi a Trégua de Natal de 1914. Em alguns lugares, ela continuou por mais de um dia. Mas quando generais souberam do acontecido, garantiram que isso nunca ocorreria novamente. E, apesar de tentativas esporádicas em anos posteriores, ela nunca se repetiu. Pouco mais de um século depois, é fácil descartar todas as lembranças e homenagens como sendo excessivamente sentimentais e piegas. O que é muitas vezes esquecido, no entanto, é o que a paz temporária representava no esquema maior das coisas. Há uma razão muito boa para uma trégua nunca mais ter acontecido nesta guerra e nas guerras subsequentes – e muito disso tem a ver com a natureza mutável da estratégia militar, o novo papel dos soldados e como eles se engajam com o inimigo e os alto riscos envolvidos nas nações industrializadas em uma guerra sem compromisso. Os políticos e líderes militares já não conseguiam mais tolerar tal confraternização em face a exércitos de massa existentes em uma época de fervor revolucionário. Era uma questão de controle.

A Trégua de Natal de 1914 também pode ser vista como o último suspiro do romântico século XIX, o gesto final de uma era que contou com soldados “cavalheirescos” e heróis galantes que podiam enfrentar seus adversários cara-a-cara. Os soldados profissionais da Primeira Guerra Mundial foram substituídos por recrutas sem nenhum senso de tradição militar. Campos de batalha, assim como as fábricas, tinham se transformado em locais de trabalho industrializados, pessoas tem deixado de lado a amizade em prol do ódio e da raiva, destruir a pessoa por seus ideais, pensamentos e idologias esquecendo que existem família, filhos e companheiro infelizmente vem se tornando um ato cada vez mais comum. Que nesse natal o ódio seja colocado de lado em nome do amor e da tolerância.

Esse Clipe é da "Mike and The Mechanics: uma banda inglesa de pop rock formada em 1985. "Over My Shoulder" é uma canção lançada em 1994, é até hoje um dos grandes hits da banda.

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© 2015 por Arnaldo Martin Szlachta Junior

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