Psicopatas, tão próximos que você nem imagina.

Essa semana, recebi pelo contato do blog esse texto que trata-se de um estudo clínico de psicologia, mas que possuí um conteúdo que chama atenção ao grande público. Por uma questão de ética clínica, a autora pediu sigilo, então publicamos como a Amiga Psicóloga:

Ultimamente, tenho tido um contato particular com muitos estudos e pesquisas envolvendo um tema que tem me chamado muito a atenção. Estou falando especificamente do transtorno de pesonalidade antissocial, mais conhecido como sociopatia ou psicopatia (apesar das diferenças técnicas entre estes conceitos). Além do interessante fato de ter em mãos um cliente com esse diagnóstico, que aceitou atendimento psicológico voluntariamente (esse fato por si já gera muitas hipóteses), o tema tem me atraído a muitas reflexões que envolvem as discussões em torno deste transtorno e a sociedade de forma geral. Elegi algumas características emblemáticas do transtorno para expor de forma mais clara meu ponto de vista: a falta de empatia, o narcisismo e o sadismo.

Falta de empatia: Ser empático não é apenas a habilidade racional de identificar o grau de dificuldade ou de satisfação que determinadas situações podem gerar (o tal do “eu entendo”), mas também de compartilhar das mesmas sensações do outro, sentir os mesmos sentimentos e pensar os mesmos pensamentos. É o modo mais intenso de “experienciar” as emoções do outro na própria carne, como se tivesse, de fato, caminhado o mesmo caminho calçando seus sapatos. Isso é uma capacidade biológica humana. Os indivíduos antissociais possuem uma dificuldade peculiar de se colocarem no lugar do outro, por isso se diz que não possuem empatia. Assim, torna-se até desnecessário dizer que pessoas sem essa capacidade tornam-se frias, insensíveis e egoístas.

Narcisismo: Essas pessoas são extremamente vaidosas. Se colocam como superiores e enxergam nos outros marionetes a serem manipulados ou degraus a serem escalados e pisados. (A falta de empatia auxilia a não sentirem nenhuma culpa ou remorso). Em sua visão de mundo, as “pessoas comuns” são fracas e vulneráveis e, por isso, merecem ser consideradas meras ferramentas para obter sucesso. As emoções são estranhas a eles e nenhuma importância pode ser dada a elas, afinal, em suas mentes objetivas, de que serviria um eu te amo? Para nada além de alimentar seu senso de superioridade e sucesso. De que serviria um “eu me importo com você”, se você não pode lhe dar uma promoção, um aumento de salário, uma viagem caríssima para o exterior ou um anel de diamantes? Eles querem status e se o seu sentimento não serve para que dê o que eles querem, então simplesmente não lhes servem.

Sadismo: Para fechar com chave de ouro, eles são sádicos. Se satisfazem com o sofrimento dos outros e, por isso, não se importam em manipular sentimentos e emoções para interesses próprios. Para eles, tudo precisa ser muito intenso. Precisam da adrenalina de um crime, do medo de uma punição extrema ou da expressão de desespero gerada pelo sofrimento alheio para se satisfazerem. Eles se sentem importantes e satisfeitos quando sentem que têm esse poder sobre os outros e, afinal, são os únicos sentimentos que são capazes de ter. A alegria e a satisfação não são possíveis, mas a adrenalina faz milagres na vida destes indivíduos.

Bem, levando em conta que o principal ambiente para estudar esse transtorno são presídios e prisões, já podemos entender o quanto essas pessoas podem ser perigosas. A privação de liberdade, nesses casos, serve muito mais para proteger a sociedade do que puni-los, afinal, são indivíduos incapazes de aprender com a punição. Mas, a questão crucial está no fato de que muitos antissociais estão espalhados pela sociedade, vivendo suas vidas normalmente e até podem ser confundidos com pessoas “normais”. Ainda, mesmo que uma parte deles possa ser muito irresponsável, outra grande parte vive muito bem adaptada à sociedade, sendo perversos enquanto fingem ser “perfeitos bonzinhos”. Você conhece alguém assim? Como um indivíduo privado das principais características necessárias para conviver em sociedade pode viver tão bem adaptado? O que ocorre é que vivemos em uma sociedade que alimenta esses indivíduos e os fortalece.

Cada vez mais somos obrigados a viver em um mundo onde os sentimentos e as emoções precisam ser escondidas e a objetividade e a racionalidade são cada vez mais cultuadas. Muitas empresas (pasmem!) selecionam seus funcionários a partir de uma análise de sua personalidade em que se pretende avaliar o quão emotivo pode ser o candidato e quanto mais ele for, menos chances tem de conseguir o emprego, porque emoções são improdutivas. Vivemos num mundo que prefere contratar homens a mulheres, porque consideram as mulheres mais vulneráveis. Vivemos num mundo racional, que desvaloriza os sentimentos, dos outros e de si próprio. Vivemos em uma sociedade psicopata em que todos são substituíveis e que quer criar cada vez mais indivíduos antissociais. Em todas as decisões, emoções são meros empecilhos.

Pelo medo de vivenciar a dor, pela covardia de se mostrar vulnerável, estamos pedindo que o humano seja frio, afinal, se escondermos nossa vulnerabilidade, nos privamos de criar vínculos, o que nos livra de sermos afetados e machucados. Estamos adquirindo um patológico medo da vida e de tudo que é naturalmente humano e, com isso, nos tornando cada vez mais frios. A nossa sociedade, assim como a minha cliente, está doente e o remédio é perder a vergonha de ter sentimentos e cultivar uma moralidade altruísta, que se preocupa consigo mesmo sim, mas sem esquecer o coletivo. É uma moralidade honesta e aberta, que ama o outro e o ensina a amar e demonstrar, para que existam exemplos. É uma moralidade empática aos sofrimentos da minoria e preocupada em desconstruir preconceitos para que sejam construidas novas idéias, mais inclusivas e tolerantes. Espero que este longo texto o deixe mais alerta para não deixar que a doença social seja a sua doença individual e seja um aviso para que esteja vacinado contra se tornar mais um psicopata adquirido e, dessa forma, protegido de pessoas tóxicas e contaminadas. Tenha uma boa semana.

A autora desse texto é da área de psicologia, apaixonada pelas artes, pelo conhecimento e por uma inteligente roda de conversa.

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