Esta é a era do Medo?


Notícias, fofocas e relatos da semana:

1 - O jovem Mohamed Ahmed, muçulmano de origem sudanesa, foi preso nos EUA quando levou para a escola um relógio digital que ele próprio havia feito e queria mostrar para o seu professor. Outro professor achou que fosse uma bomba e chamou a polícia.

2 – Um ciclista sofreu uma tentativa de homicídio quando pedalava na Rua. Um motorista, em um Fiesta, após chamá-lo de comunista, jogou o carro em cima do rapaz por diversas vezes, sem que a vítima esboçasse reação alguma.

3 – Estudantes da UEM (Universidade Estadual de Maringá no Paraná) pedem mais segurança no campus. Assaltos e tentativas de estupro são comuns nos últimos meses, especialmente envolvendo mulheres. Enquanto alguns solicitam a ajuda da PM, outros culpam a pouca iluminação ou a ausência dos alunos na universidade - devido a políticas municipais como a lei seca e o mercado imobiliário que dificulta a permanência dos estudantes no bairro.

O que as três notícias têm em comum?

- Todas falam de medo. O medo implantado nas vítimas. Primeiro, no jovem Mohamed, em nome dos muçulmanos migrantes que buscam uma nova vida. Depois, no ciclista, em nome dos ciclistas e daqueles que são taxados negativamente como comunistas (voltamos à ditadura?). Por fim, no caso da estudante maringaense, em nome de todos os estudantes que não se sentem seguros dentro da própria universidade e desistem de ir à aula.

E no quê as três notícias diferem?

- Em cada uma, o medo é implantado, APARENTEMENTE, por uma entidade diferente. Primeiro, o medo advém de uma política xenofóbica, de um governo classista e discriminatório, que vê o diferente como ameaça eminente aos seus planos de dominação. Depois, o medo nasce de um ódio incentivado pelos interesses partidários, de uma ignorância política e humana plantada desde a colonização brasileira e que perdura até os dias atuais. Por fim, o medo nasce da individualização humana, da falta de convívio e de espírito de grupo e da premissa de que violência se combate com mais violência.

O medo, meus amigos, é detalhadamente estudado, planejado, derramado por aqueles que precisam vender segurança. O sociólogo polonês Zygmund Bauman, na sua teoria da modernidade líquida - embora seja um clichê com o qual não simpatizo -, discorre que a questão da segurança é um conceito engendrado pela cultura de massa, capaz de instaurar um medo de tal modo a poder consumir a sua própria segurança. Então, se o medo é instaurado, a segurança pode ser vendida.

A neurose coletiva freudiana começa a agir: religião, escola, família e outras instituições oferecem a tão sonhada sensação de segurança e falsa liberdade, em que se garante a felicidade plena – embora se pague por ela, de uma forma ou de outra.

O problema é que o medo é filho da filosofia de Thomas Hobbes: “o homem é lobo do homem”. Disseminando essa premissa, o indivíduo passa a viver num caos imaginário, em que o outro é seu inimigo em potencial, seu assaltante, seu homem bomba, seu rival político.

Nesse processo, o indivíduo se fecha em condomínios, redes sociais e clubes particulares. Criam-se leis secas, entrega-se o mercado de drogas à informalidade, exige-se da polícia mais do que ela pode oferecer. A cena urbana é clássica: polícia pegando ladrão, ladrão pegando trabalhador, trabalhador pegando ciclista. Ladrão pegando a polícia, trabalhador pegando ladrão, ladrão de bicicleta. O helicóptero do Datena está a postos: mais uma perseguição policial para o deleite dos telespectadores.

Richard Sennet, sociólogo e historiador norte-americano, escreveu que uma cidade é um assentamento humano em que estranhos têm a chance de se encontrar. É tudo o que o sistema não quer, porque esse encontro oferece segurança de forma gratuita. Esse encontro possibilita que o homem seja cordeiro do homem.

Esta é a era do medo real? Não.

Esta é a era de um medo plástico, fabricado pelas entidades que lucram com ele. Esta é a era da lucratividade. Esta, meus amigos, é a era do lobo criado em cativeiro.

Fernanda Cassim além de colunista desse blog, é professora, doutoranda em letras e estudante de psicologia.

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© 2015 por Arnaldo Martin Szlachta Junior

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