Dignidade e respeito não estão cheirando bem na campanha publicitária de "O Boticário"


Percebemos o quanto a sociedade brasileira "encaretou" nos últimos tempos. Apesar das críticas e do fundamentalismo que sempre existiu, recordo-me dos debates dessa época sobre o homossexualismo (sim, esse era o termo mais comum no final da década de 1990). Muitos podem dizer que se trata de um pensamento saudosista de minha parte, mas, a você que tem pelo menos seus 30 anos, faço o convite para fazer uma reflexão sobre aquilo que se discutiu sobre a homossexualidade há algum tempinho atrás.

O que percebo é que passamos de uma década politicamente mais correta para uma década com pessoas que assumem uma opinião e as defendem com unhas e dentes. Até aí, tudo bem. O problema é esses emissores de opiniões ou são cegos por doutrinas religiosas, políticas ou tradicionais, ou não têm lido nada sobre o assunto. A diversidade de opiniões é sensata e necessária para qualquer sociedade democrática, mas é necessário estar atento, pois, muitas vezes, nossos argumentos usam elementos enraizados da nossa cultura, maneiras de pensar que destroem profundamente o outro e crueldades sobre todos que se aproximam da situação em questão. O “achismo” ou a condução do tema por certos líderes (como Silas Malafaia) fazem alguém dizer e agir com ódio, proferindo palavras de destruição.

O Sociólogo polonês Zygmunt Bauman (que está na moda acadêmica dos últimos anos) apresenta uma teoria interessante - e muito didática, na minha opinião - sobre o mundo pós-moderno (esse mesmo que sofre crítica terríveis). Segundo ele, há uma destruição das estruturas modernas e, sobre essas estruturas modernas, coloca-se a sociedade líquida. O termo “líquido” é muito interessante, pois a condição física dos líquidos demonstra como a atual sociedade é mutável e se reorganiza muito rapidamente, mas utiliza-se de elementos da mundo moderno. Tomemos como exemplo um casal gay que busca formar uma família normal, adotar filhos e conviver na sociedade. O casal gay, pela perspectiva de Bauman, forma uma transformação líquida, e eles querem, assim como todos, o espaço de uma família na sociedade, ou seja, uma instituição moderna. Eis o choque!

Há algum tempo, estava lendo um artigo muito interessante: A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia, no qual Daniel Welzer-Lang faz uma retomada dessa invenção da família, a criação das tradições e a utilização de argumentos religiosos para essa instituição. Historicamente, a família possuía relações e dinâmicas distintas das quais observamos na contemporaneidade. O fato é que aplicamos a concepção tradicional de família que se consolidou pós séculos XVI em todas as instituições familiares, mesmo tendo elas passado por mudanças por todas essas décadas. Como é citado no referido artigo, “[...] a família é apresentada não mais como uma forma social evolutiva, mas como um quadro natural que liga um homem a uma mulher”.

Silas Malafaia diz que todos temos direitos à opinião numa sociedade democrática. De fato, temos que nos colocar e defender nossas opiniões, mas associar a homossexualidade à algo demoníaco - ou como um desvio de personalidade ou uma safadeza - é uma visão completamente preconceituosa e intolerante. A sexualidade - e o que entendemos dela - é um processo de cada um. Às vezes, ainda me deparo com fichas cadastrais que, tentando ser abrangentes, utilizam termos como “opção sexual”. A sexualidade não é opção, é algo natural. E, se pensarmos que tudo na natureza é feito por Deus, a homossexualidade é tão normal como a capacidade de sentirmos e distinguirmos os perfumes.

A ação para boicotar determinado produto de acordo com seu discurso ideológico já foi muito usada pela sociedade organizada em diversas situações: quando um determinado produto apresenta o uso de animais em experimentos, quando não utiliza práticas sustentáveis ou quando, de certa maneira, faz referência ao nazismo, enfim. Mas dizer que não se deve comprar um produto porque ele mostra a diversidade e respeita o outro já não pode ser entendido como um boicote ideológico, mas como uma guerra à igualdade. Além disso, certamente a empresa “O Boticário” fez estudos para saber quem compra seus produtos e é muito provável que essa polêmica já era esperada, já que a marca ganhou atenção da mídia e muita gente está comentando o fato.

Agora, será que comprar ou não um produto nos faz participantes da causa gay? Se assim for, vou comprar agora muitos produtos e continuar lutando para que todos tenham antigos direitos modernos, como a dignidade e o respeito.

Revisão textual de Fernanda Cassim

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